quinta-feira, 12 de novembro de 2015

10 Fatos Urgentes Sobre a Crise de Migrantes na Europa

De janeiro a agosto de 2015, mais de 350.000 migrantes tinham sido detetados nas fronteiras da Europa. Esse é o valor mais elevado já registado e é provável que ainda fique aquém do real total. Cada dia traz novas imagens de protestos migrantes na Hungria ou crianças mortas a serem puxadas do mar depois de um cruzamento Mediterrâneo falhar. Foi chamada a pior crise de toda uma geração.

Em meio ao som e à fúria da mídia, os fatos podem ser difíceis de encontrar. Mas olhe de perto e verá que existem algumas verdades indiscutíveis sobre a crise atual da Europa.

10- É Uma Crise de Refugiados, Não de Migrantes


A maior parte da imprensa até agora caraterizou a crise como sendo sobre "migrantes". A ONU discorda. A 01 de julho de 2015, lançaram uma declaração sobre as suas investigações das 137.000 pessoas que tinham, por esse ponto, atravessado o Mediterrâneo, este ano. Eles concluíram que a grande maioria deles seria melhor classificado como "refugiados". 

Isso tem gerado um debate importante (e emocional) na mídia da Europa. Outlets, como a BBC optaram por continuar a usar o termo "migrante", como é tecnicamente correto, argumentando que é neutro e descreve com precisão tanto a maioria dos refugiados como os migrantes económicos que chegam com eles. Outros discordam fortemente. Porque "migrante" denota ação voluntária e a ONU sugeriu que não deve ser usado esse termo onde os refugiados estão em causa. A Al-Jazeera tem argumentado que o termo é usado como um insulto nestes dias e desumaniza ambos os grupos.

Isto é importante porque a língua em torno dos migrantes tornou-se tóxica nas últimas semanas. Os tablóides britânicos têm relatado "enxames" ou "hordas" de migrantes "saqueadores" que preparam uma "invasão". Um colunista de destaque até mesmo chamou àqueles que morrem no Mediterrâneo "baratas". É improvável que tais coisas seriam escritas sobre os refugiados, especialmente considerando que a maioria dos que chegam são refugiados.

9- A Maioria Desses Refugiados vêm dos Piores Lugares da Terra 


Claro, ainda há imigrantes económicos que entram na Europa, muitas vezes através das mesmas rotas. No entanto, a maioria está a fugir de alguns dos países mais perigosos do planeta. Daqueles que atravessam o Mediterrâneo, um terço está a escapar da carnificina que é a Síria. O segundo e terceiro maiores grupos são provenientes do Afeganistão e da Eritreia, a primeira uma zona de guerra corrupta e a última uma ditadura brutal conhecida como "a Coreia do Norte da África."

Grupos menores também estão a fugir de lugares igualmente terríveis. Iraquianos, somalis e nigerianos, estão a fazer o seu caminho para a segurança da Europa, assim como os cidadãos de Darfur, onde o genocídio está em curso desde 2003. Ao todo, pensa-se que 70 por cento das pessoas que cruzam, são de África.

Por outro lado, ainda há um grande número proveniente de países que não são considerados perigosos. Nos primeiros três meses de 2015, houve mais pedidos de asilo de cidadãos de Kosovo do que em qualquer outro lugar. Albaneses e sérvios também fizeram um número significativo do total. Em geral, às pessoas destes países tem sido negado o asilo. A Alemanha fez um ponto ao voltar atrás a qualquer um dos Balcãs.

8- Há Menos Refugiados do que se Pensa


No início deste artigo, mencionei que 350.000 pessoas haviam cruzado a UE durante oito meses, encerrados em agosto de 2015. É muito mais do que as 70.000 que chegaram em  2014 inteiro. É mais do que toda a população da Islândia. Mas não é tão grande como parece.

Como uma única entidade, a União Europeia tem uma população de 503 milhões e uma área de superfície de 4,4 milhões de quilómetros quadrados (1.700.000 MI 2), maior do que a Índia e o Peru juntos. Nessa escala, 350.000 pessoas representam menos de 0,7 por cento de toda a população. Embora 350.000 seja provavelmente uma estimativa relativamente baixa, que não inclui os refugiados dos Balcãs que são enviados de volta e outros a quem é negado asilo.

A retórica de um enxame que engole a Europa não reflete a realidade em todos os países. Enquanto alguns, como a Hungria, são genuinamente esticados ao ponto de rutura, outros já quase não sentem qualquer impacto. A Grã-Bretanha recebeu até agora menos de 300 refugiados sírios este ano e geralmente tem visto os seus níveis de requerentes de asilo em queda global. A partir de 2011, cerca de 200.000 refugiados, o Reino Unido agora abriga 117.161, uma queda de mais de 76 mil. A Espanha recebeu 21,112 aplicações, uma das mais baixas da Europa numa base per capita. A Eslováquia recebeu tão poucos que o número é efetivamente zero.

A verdadeira questão é que a política da Europa não é coordenada em matéria de reinstalação de refugiados. A Alemanha quer que cada nação tenha o seu quinhão para aliviar a pressão sobre a Hungria e a Grécia. Mas não existem regras da UE que exijam isso. Como resultado, vários países têm efetivamente fechados as suas fronteiras e recusam-se a receber quaisquer refugiados.

7- Mas, Mesmo Assim, É um Número Muito Elevado Para Alguns Países


Ao longo do último par de anos, a Hungria abriu as suas portas para cerca de 130 mil requerentes de asilo. Pode não parecer um número grande, mas a população da Hungria é tão pequena que isso está a criar um grande desafio. Como uma das principais rotas para os refugiados que vêm através dos Balcãs, esta pequena nação tem visto uma maré de seres humanos a passar sobre a sua porta. Os líderes têm respondido ao retirar os refugiados das suas estações de comboios e a recusar-lhes a passagem para a Alemanha.

Mais ao sul, partes da Grécia foram igualmente oprimidas. Já em apuros financeiramente, a pequena nação tem sido incapaz de processar milhares e milhares de aplicações. Como resultado, lugares como a Ilha de Lesbos têm visto o seu balão de população de 90.000 passar a cerca de 110.000, com até 2.000 novos refugiados todos os dias. O resultado tem sido frequentemente a miséria, com milhares de pessoas amontoadas em acampamentos temporários que o governo não se pode dar ao luxo de manter adequadamente.

Mesmo os países que se orgulham de ser abertos aos refugiados podem estar a ter mais problemas do que sem eles. Embora a Alemanha tenha arremessado as suas portas abertas para os sírios, The Economist afirma que o país está politicamente a atingir o seu ponto de ruptura.

6- Na Europa, Muitos Acolhem os Refugiados


Dado o cenário potencialmente explosivo acima descrito, é fácil supor que todos os europeus estão unidos em protesto contra os refugiados. Apesar de alguns setores da mídia o pintarem dessa forma, simplesmente não é verdade.

Na Alemanha, centenas de fãs de futebol em vários jogos têm levantado bandeiras enormes de boas-vindas aos refugiados. Com o futebol europeu considerado tradicionalmente um terreno fértil para o racismo de extrema-direita, esta é uma mudança inesperada dos acontecimentos. Na Áustria, 20.000 recentemente marcharam sobre Viena para mostrar a sua solidariedade para com aqueles que fogem da perseguição. Num acampamento de migrantes temporários em Munique, a polícia alemã foi forçada a virar-se para os moradores quando um apelo por doações de alimentos resultou no campo a ser inundado com volumes. As pesquisas têm mostrado consistentemente que 60 por cento dos alemães acredita que o seu país é capaz de ajudar ainda mais refugiados.

Mesmo a cidade húngara de Szeged, uma das cidades mais afetadas, tem distribuído milhares doação de alimentos, roupas e assistência médica aos refugiados nas suas ruas. Cenas semelhantes foram relatadas em partes da Grécia.

Isto não é para sugerir por um minuto que tudo é claro. Na Alemanha Oriental, os abrigos de migrantes foram incendiados pelos neonazistas. Na Suécia, há temores de integração entre a comunidade de refugiados. No entanto, parece que os cidadãos europeus estão longe de estar unidos contra os recém-chegados.

5- O Reino Unido é Especialmente Conflituoso 


Com a sua linguagem compartilhada, muitos americanos interessados na crise de refugiados estão a voltar-se para o Reino Unido como notícia. No entanto, a resposta do Reino Unido foi especialmente conflituosa, com os meios de comunicação a explodir num jogo de bola político.

As recentes pesquisas têm mostrado que o país não sabe como quer responder à crise. Uma pesquisa relatada pela ITV, declarou que cerca de metade do público britânico quer que todos os refugiados sejam bloqueados de entrar no país. Quando perguntados especificamente sobre as pessoas que fogem da guerra civil síria, 47 por cento dos entrevistados disseram que não deveriam ser recebidos no Reino Unido. Quando perguntados mais amplamente sobre os conflitos dos refugiados, 42 por cento ainda preferiu fechar as fronteiras. Outras pesquisas contradisseram essas. Uma encomendada pela YouGov no verão passado constatou que 8 em cada 10 jovens britânicos estavam orgulhosos da história de tolerância para com os refugiados do seu país.

Diferentes regiões estão também extremamente divididas. Comprometendo-se a fazer mais para ajudar os refugiados, o primeiro-ministro escocês Nicola Sturgeon foi repreendido publicamente por David Cameron ao recusar-se a aceitar mais de 300 refugiados sírios. Os membros do próprio partido do primeiro-ministro têm chamado à sua resposta à crise vergonhosa.

4- A Crise Poderia Ainda Desmoronar a União Europeia 


Um dos aspetos mais notáveis da crise é como ela está a agir como um catalisador para muitos dos problemas que a Europa enfrenta. Apesar de sobreviver a uma crise bancária que quase afundou todo o continente, a UE está agora em perigo de desmoronamento.

Na vanguarda está o princípio da livre circulação. Como parte do Espaço Schengen, 26 países europeus eliminaram os controlos nas fronteiras entre um e outro, a criação de uma UE aberta, onde qualquer cidadão pode viver e trabalhar em qualquer lugar. Isto é considerado como um dos fundamentos da Europa. Angela Merkel tornou muito claro que a Alemanha considera que uma UE sem Schengen deve ser destruída. No entanto, alguns países querem agora que a Schengen seja eliminada.

A Dinamarca é um dos muitos agitados para ter os controlos nas fronteiras reintegrados. A Grã-Bretanha está logo atrás, apesar de ser um dos dois únicos países da UE não Schengen (a Irlanda é o outro). De um modo diferente, a Alemanha também está a ter problemas com o sindicato. Berlim está cada vez mais frustrado por as outras nações não estarem a receber mais refugiados, argumentando que é o seu dever humanitário fazê-lo.

Há também a questão do próximo referendo da Grã-Bretanha em permanecer na UE, o que poderia ser realizado no começo de abril de 2016. Alguns estão preocupados que a crise dos refugiados possa fazer o Reino Unido votar para sair. Se isso acontecer, a Finlândia já afirmou que "Sem a Grã-Bretanha, não há União Europeia."

3- Outras Regiões Têm Absorvido Mais Refugiados 


Tão grande quanto a crise migrante europeia é, não é nada comparado com algumas outras regiões. No Oriente Médio, alguns países estão a experimentar algumas das mais rápidas mudanças populacionais vistas na história humana. A Túrquia, por si só, já viu a sua população aumentar de 1,6 milhões em sírios que fogem através da fronteira numa tentativa desesperada para escapar à ISIS. Até ao final do ano, o ACNUR estima que dois milhões de refugiados estarão a viver na Túrquia.

No entanto, este ainda é um número comparativamente pequeno, representando cerca de 2,6 por cento do total da população da Túrquia. Na Jordânia, os efeitos foram ainda maiores. Este pequeno estado tem recebido 620.000 refugiados, o equivalente a quase 10 por cento da sua população de 6,4 milhões. Com a pressão adicional, a Jordânia está agora em perigo de ficar sem água. No Líbano, quase 1 em cada 5 pessoas é um refugiado sírio a partir de março de 2015. Esse número pode agora ser tão alto quanto 1 em cada 4. Comparado a esses números, a Europa recebeu relativamente poucos refugiados.

Os EUA também desempenharam o seu papel na crise. Como uma das maiores nações de reinstalação dos refugiados na Terra, a América recebe numa média de 70.000 pessoas por ano. Infelizmente, as regras pós 9/11 significam que é extremamente difícil para os sírios serem aceites. Até agora, apenas 1.000 refugiados sírios foram aceites nos EUA, embora a Casa Branca planeie aumentar esse número para 8.000 em 2016.

2- Os Efeitos Sobre a Economia São Mais Positivos do Que se Pensa


Na Europa, o debate de refugiados muitas vezes centra-se nos efeitos que um afluxo de pessoas terá sobre a economia de uma nação. Muitos acreditam que os migrantes e os refugiados são atraídos pelos benefícios sociais excessivamente generosos. Essa crença é especialmente prevalente na Grã-Bretanha. Está também muito longe da imagem completa.

O estado de bem-estar na Grã-Bretanha é bastante miserável. Num relatório da Comissão Europeia de 2012, o Reino Unido foi colocado ao lado da Polónia, da Roménia, da Eslováquia, da Estónia e da Malta, pelo seu "relativamente apertado bem-estar". A Bélgica, a Dinamarca, Portugal, Espanha, a Finlândia e os Países Baixos, têm a mais alta classificação. Também é difícil para os migrantes reivindicarem os benefícios de desemprego ("Subsídio de Desemprego") no Reino Unido, exigindo que os migrantes estejam no país há mais de três meses, para provar que são susceptíveis de obter trabalho. Mesmo assim, só podem reivindicar benefícios para seis meses a menos que obtenham uma oferta de emprego.

Para os refugiados, os controles são ainda mais apertados. No Reino Unido, os requerentes de asilo recebem uns meros £ 36,95 por semana para viver, mais baixo do que na França. Os refugiados da Alemanha e da Suécia ainda menos. Depois, há as restrições de trabalho. A Grã-Bretanha e a Suécia têm regras extremamente rigorosas em matéria de refugiados de trabalho, ou seja, o seu impacto sobre o mercado de trabalho é mínimo.

The Economist argumentou que este é realmente um problema e exigiu que os países aceitassem os refugiados e os deixassem trabalhar. O jornal aponta para estudos que mostram que os imigrantes são contribuintes líquidos para o erário público, mais provavelmente para montar um negócio e menos propensos a cometer crimes do que os residentes nativos. O documento argumenta que os migrantes têm sido mostrados para aumentar os salários em geral. Dado o rápido envelhecimento da população da Europa, este pode ser o caminho pelo qual muitas nações são forçados a ir.

1- Os Refugiados Estão Realmente a Sofrer


Com a cobertura da crise da Europa que tende a concentrar-se sobre o impacto na UE, é fácil esquecer quem são as verdadeiras vítimas. Para todas as preocupações legítimas de muitos europeus anti-imigrantes, são os refugiados que estão realmente a sofrer.

Todos os dias, crianças estão a afogar-se no Mediterrâneo quando tentam fugir da perseguição. A 2 de Setembro de 2015, um menino chamado Aylan Kurdi foi encontrado de bruços, numa praia turca. Ele e a sua família tinham fugido das atrocidades do Estado islâmico no norte da Síria e tinham a esperança de chegar ao Canadá. Tinha 3 anos. O seu irmão, de 5 anos, morreu com ele.

Na Áustria, um camião que transportava 71 refugiados foi abandonado numa estrada no calor sufocante do verão. Todos dentro dele sufocaram. Entre os mortos estavam uma menina, de 2 anos de idade, e três meninos, com idades entre os 8 e os 10 anos. No momento em que foram encontrados, os corpos estavam tão decompostos que era quase impossível estabelecer um número exato da morte.

Todos os dias, há mais e mais histórias como esta, das 150 pessoas que se afogaram ao largo da costa da Líbia para as cerca de 2.000 pessoas não identificadas que morreram numa tentativa desesperada de chegar à Europa entre janeiro e abril deste ano. E ainda mais continuam a chegar. Embora possa haver respostas fáceis para a atual crise de refugiados da Europa, a última coisa que devemos fazer é ignorar este sofrimento inimaginável.

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